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andamos pela rua, e ele me contou de um episódio inusitado em que ficou bêbado. e eu ri sinceramente. abelardo era definitivamente, apesar de tudo, muito engraçado.pé na frente do outro, seguimos pelo calçadão. mas era fevereiro. segunda feira, 27 de fevereiro. e fazia um calor típico de rio de janeiro.-ah abelardo, vamos sentar num banquinho vamos? eu não sabia se ele ia gostar de meter os pés na areia, mas eu não me importava, a gente ia andar pela porra da areia e sentar num banco. pisamos na areia de tênis e tudo. sentamos. acendi um cigarro. ofereci e ele recusou. dez palmos separavam-nos fisicamente. mil anos separavam nos espiritualmente. ah abelardo eu queria ter gostado de você. eu te juro. abelardo não sabia jogar, e eu também não sei. mas as cartas dele já estavam todas na mesa, e eu não tinha nem baralho. eu sequer sentei à mesa. fiquei de espreita olhando por cima dos ombros dos que se arriscavam. e pasmem, ali estava abelardo se arriscando. ele gostava de mim. mas eu não gostava dele. e isso me entristece. silêncio. ele me deixou sóbria com toda aquela confissão incisiva de amor e meus olhos estão fixos no mar. eu penso no que devem estar pensando de nós. eu penso que sou definitivamente zicada pra homens.
nós permanecemos mudos e pensativos por minutos a fio. e se não fosse pela cantoria do vendendor ambulante o silêncio seria audível. são dez horas da noite e eu, apesar do desconforto, não quero que abelardo vá. mas ele precisa. acompanho-o até o ponto de ônibus. olho pra ele, abraço. desculpa abelardo. me perdoa se te iludi. se não cumpri. amanhã eu tinha aula, e tomei a rua principal do bairro. parei no mc donalds, fiz um xixi. comprei um lanche nojento daqueles, entrei no meu ônibus. abri a porta e a casa estava as escuras, e o desenho que fiz pra abelardo perdido na escuridão. e a letra dele ali no papel. e o lugar que ele sentou ainda estava amassado. amassa o papel. e abelardo, amassa seu sentimento, amassa sua dor. esconde aí, põe embaixo dum colchão. porque eu, eu vou sentar confortavelmente e ligar a tv na novela. comer minha batata frita fria e depois dormir o sono dos justos. vc vai doer e eu vou doer por você. nada além.
sexta-feira, 28 de março de 2008
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